lunes, enero 26, 2009


Samuele Pellecchia, da agência Prospekt.

lunes, enero 19, 2009

Enquanto isso, no Brasil...


"O mergulho nas trevas do lamento e da impotência foi tão profundo que alguns se perderam pelos subterrâneos, ficaram na margem ou escolheram as viagens permanentes. Mas muitos cansaram de se lamentar, talvez com medo de se tornarem tristes heróis de uma 'guerra acabada'. Estão voltando a querer, isto é, estão recuperando a vontade para voltar a fazer - apesar de tudo." (Vladimir Herzog)

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Justiça arquiva caso de jornalista Vladimir Herzog, morto pela ditadura


http://knightcenter.utexas.edu/blog/?q=pt-br/node/2724

A juíza federal Paula Mantovani Avelino determinou o arquivamento dos pedidos do Ministério Público Federal para que fossem investigadas criminalmente as mortes do jornalista Vladimir Herzog e do militante de esquerda Luiz José da Cunha, torturados e assassinados por agentes do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) durante a ditadura militar, informaram o Último Segundo e O Globo.

A juíza concordou com a argumentação da procuradoria criminal, que considera os crimes prescritos, disse O Globo. Isto significa que, em ambos os casos, já se passaram mais de 35 anos, tempo superior ao da pena máxima fixada abstratamente para homicídio, explica o Último Segundo.

Outro argumento da juíza foi o fato de o Congresso brasileiro nunca ter ratificado a convenção internacional de 1968, que transforma tortura e assassinatos políticos em crimes imprescritíveis. O Globo acrescenta que entidades civis pretendem levar o caso à Justiça internacional: Chile e Peru não ratificaram a convenção. Isso não impediu que fossem condenados pela Corte Interamericana, disse a procuradora cível Eugênia Fávero.

No dia 24 de outubro de 1975, o jornalista Herzog, que na época era diretor do Departamento de Jornalismo na TV Cultura, apresentou-se na sede do DOI-Codi, em São Paulo, onde iria prestar esclarecimentos sobre o seu relacionamento com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Foi preso, torturado e morto no dia seguinte, acusado de ligações com o partido. Leia aqui reportagem do Observatório da Imprensa sobre Herzog.

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Engraçado (para não dizer trágico) pensar nisso no momento em que o Brasil compra briga com a Itália para defender Battisti, do grupo Proletários Armados pelo Comunismo, condenado por 4 assassinatos. Vai entender...

martes, enero 13, 2009

Apartheid


"SOB O ÓDIO DOS VIZINHOS. Atrocidades da guerra na Faixa de Gaza atrapalham o entendimento de Israel como uma ilha de democracia cercada de ditaduras no Oriente Médio". (Veja, 14 de janeiro de 2009). Mesmo sabendo que não devo mais me surpreender com as pérolas da Veja, não pude deixar de tremer, desconsolada pelas formas de jornalismo que ainda perduram... Por trás do título, uma dúzia de soldados israelenses choravam a morte de um companheiro.

Nosso semanário esqueceu de algumas coisas: (1) O que é democracia? (2) O ódio Israelese também mata - 890 vidas desde 27 de dezembro; (3) Israel fez o que justamente o Hamas esperava: revidou, abalando o poder da Autoridade Palestina e seus esforços em alcançar a paz através da diplomacia; (4) Israel está violando os direitos humanos em tantos pontos que seria impossível enumerá-los aqui; (5) nem a justificativa, nem o custo desta guerra, nem mesmo a possibilidade do objetivo ser alcançado se sustentam; (6) a Palestina e seu direito de existir não pertencem ao Hamas que, há muito tempo, deixou de lutar em prol dos palestinos.

Pois vejam vocês a última façanha da "democracia" israelense: os dois partidos árabes responsáveis por representar 20% da população foram banidos da próxima eleição, que deve ser realizada no começo de fevereiro. Em carta de 2001 endereçada ao jornalista Thomas Friedman, Nelson Mandela já alertava para a nova cara do Apartheid:

"(...) Israel não pensava num 'Estado' e sim numa 'separação'. O valor da separação mede-se em termos da capacidade de Israel para manter judeu um Estado judeu e de não ter uma minoria palestiniana que pudesse no futuro transformar-se em maioria. Se isso acontecesse, obrigaria Israel a tornar-se ou um Estado laico e bi-nacional ou a tornar-se um Estado de apartheid, não só de facto, mas também de direito.

Thomas, se você prestar atenção às sondagens israelitas ao longo dos últimos 30 a 40 anos, vai ver claramente um racismo grosseiro, com um terço da população a declarar-se abertamente racista. Este racismo é do tipo 'Odeio os árabes' e 'quero que os árabes morram' Se você também prestar atenção ao sistema judicial israelita, vai ver que há discriminação contra os palestinianos, e se considerar especialmente os territórios ocupados em 1967 vai ver que há dois sistemas judiciais em acção, que representam duas abordagens diferentes da vida humana: uma para a vida palestiniana, ou para a vida judia.

Além disso, há duas atitudes diferentes sobre a propriedade e sobre a terra. A propriedade palestiniana não é reconhecida como propriedade privada, porque pode ser confiscada. Para a ocupação israelita da Cisjordânia e de Gaza, há um factor suplementar a tomar em conta. As chamadas 'Zonas autónomas palestinianas' são bantustões. São entidades restritas no seio da estrutura de poder do sistema israelita de apartheid.

O Estado palestiniano não pode ser um sub-produto do Estado judeu, só para conservar a pureza judaica de Israel . A discriminação racial de Israel é a vida quotidiana dos palestinianos, porque Israel é um Estado judeu, os judeus israelitas têm direitos especiais de que os não-judeus não beneficiam. Os árabes palestinianos não têm lugar no Estado 'judeu'.

O apartheid é um crime contra a humanidade. Israel privou milhões de palestinianos da sua liberdade e da sua propriedade. Ele perpetura um sistema de discriminação racial e de desigualdade."

lunes, enero 12, 2009

Pernambucosevillano


João Cabral de Mello Neto também era sevilhano de coração – demorou até que revelasse isso para vocês, queridos amigos. Por isso, me desculpo! A Luiza, outra apaixonada pela cultura espanhola, contou tudo em uma matéria publicada no ZERO em Revista em outubro de 2007. Sinto também pelo delay...

Pois é. Pelo o que a Lú nos revela, o grande poeta pernambucano, que não era bobo nem nada, também gostava de ficar perto da praça La Campana, compondo versos modernistas e vendo as sevilhanas desfilarem coques e flores durante as tardes de verão.

Como João Cabral não veio para esta página antes ainda é uma incógnita. (minto: egoísta, acho que não queria dividir com mais ninguém a informação preciosa, a sensação de que só ele e eu vimos com o mesmo deslumbramento os pores-do-sol no Guadalquivir!)
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Sei que a maioria já conhece “Morte e vida Severina”, que acompanha as fotos de Sebastião Salgado. Mas nunca é demais relembrar aquele início, irretocável, onde temos o primeiro contato com “Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba” – nós.

Esse post vai para meu grande amigo Paulo de Tarso que, 7 anos atrás, me cutucou durante uma aula chata e me entregou um poema do Vinicius. Mas “Morte e vida” ainda deve ser o seu favorito.

Morte e Vida Severina
(João Cabral de Mello Neto)

O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR
QUEM É E A QUE VAI

- O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

domingo, enero 11, 2009

Playing for change



Iniciativa incrível e, como as melhores, da maior simplicidade: unir através da música! Agradeço ao meu amigo Seba por ter me apresentado um projeto tão bacana, que agora divido com vocês. Neste endereço poderão acessar o site da organização. Recomendo que todos vejam o vídeo de apresentação do projeto - emocionante!

jueves, enero 08, 2009

Um pouco de doçura

* foto de Rina Castelnuovo /The New York Times

As desilusões causam mais estrago em janeiro. Ao longo do ano, esquecemos dos pedidos e sonhos feitos na hora da virada. Em março, junho, outubro, o rastro deixado pela guerra se confunde com outras tantas datas comemorativas e acontecimentos em capitulares. Mas agora, em janeiro, os desejos estão frescos na memória e a realidade arde nos olhos logo depois do foguetear do reveillon.

Para adocicar esse sentimento, escolhi postar aqui um texto de Fernando Sabino sobre a simplicidade – ou sobre a felicidade por trás dela. Regininha o apresentou numa inesquecível aula de crônicas, e sou grata por isso. Um sorriso infantil honesto, para que possamos nos lembrar de como ele é bonito e, por um breve momento, ter a paz de volta:

A última crônica

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

miércoles, enero 07, 2009

Em Gaza

Para os que estão acompanhando a guerra em Gaza, recomendo o blog de um palestino que mora lá. http://ingaza.wordpress.com/

Direto da fonte, preciosas informações alternativas.

miércoles, diciembre 17, 2008

Fotógrafo de guerra

In a way, if an individual assumes he risk of placing himself in the middle of a war in order to communicate to the rest of the world what is happening, he is trying to negotiate for peace.

And that is why photographers go there: to show them, to reach out and grab them, and make them stop what they are doing, and pay attention to what is going on. To create pictures powerful enough to overcome the deluding effects of the mass media and shake people out of their indifference. To protest and, by the strength of this protest, to make others protest.

James Nachtwey


domingo, diciembre 14, 2008

Post de fim de ano


Ficarei alguns dias sem escrever. Na próxima sexta-feira viajo aos Estados Unidos para encontrar com a minha irmã, que estuda cinema em Santa Bárbara (Califórnia). Saudade imensa da caçulinha... Aproveitaremos para passar um Natal e um Ano Novo mais intimistas, longe das grandiosas festas e dos shows pirotécnicos de Florianópolis. Só nós quatro, em algum ponto de Lake Tahoe, quem sabe a quanto graus abaixo de zero. Natal com neve, como nos filmes.

Louca para ver a sister, deixo vocês com meu mais sincero desejo de que 2009 seja um ano bom, mais fraterno, humano e justo.

viernes, diciembre 12, 2008

jueves, diciembre 11, 2008

Explicando-me

Faz algun tempo que não penso em outra coisa: essa é a sorte de ser uma estudante de jornalismo, com tempo para, de fato, mergulhar em algum tema. No dia 27 de janeiro partirei com a Giovana para Espanha, Marrocos, Argélia e para o Saara Ocidental (território em litígio que constitui o centro de nosso trabalho de conclusão de curso).

Explicado meu crescente interesse em temas relacionados ao continente africano. Muitos me perguntam, quase com recriminação, porque não penso mais no Brasil - já que temos problemas de sobra por aqui. "Não é preciso ir longe para se deparar com os problemas decorrentes do 'subdesenvolvimento'." De fato. Mas quero aproveitar esse espaço para dividir as questões que faço a mim mesma todos os dias e, quem sabe, esclarecer alguns por quês.

Ano passado fiz um curso no El Pais voltado para o jornalismo internacional. O tema, "África na sociedade global", levou à casa de campo de Miraflores de la Sierra gente como Ramón Lobo, um dos correspondentes mais respeitados da Espanha, e Isabel Coello, jornalista na região dos Grandes Lagos. Durante os oito dias, caí na real de que estávamos falando ali de problemas que também eram meus, que estavam ligados à história do meu país e, mais ainda, à história dos paises que, dentro de uma lógica cruel, fazem parte do chamado terceiro mundo.

O que acontece ali, logo ao lado, tem uma mesma raíz e as consequências da desigualdade, embora em outra poporção, são bem similares aos problemas que enfrentamos por aqui. A fome que se sente é a mesma.

Os problemas da África são nossos. Não basta se conhecer olhando no espelho: é preciso olhar para o outro, ao qual temos o costume de só reservar medo, preconceito e, na melhor das hipóteses, nossa compaixão individualista. Acredito (na minha humildade de 21 anos) que o jornalismo internacional voltado para os problemas das 52 nações africanas pode contribuir muito para que, desde aqui, possamos construir uma nova perspectiva de mundo. Nossa cultura só ensinou a olhar para cima.

Não digo que devemos nos unir à África da forma retórica e messiânica que Lula propõe, com toda a sua arrogância, desfilando em carro aberto ao lado do ditador do Gabão. Tampouco acho que o Brasil deva se colocar como líder nessa empreitada do sul contra o norte (que sabemos nós de liderança?). Sugiro o conhecimento mútuo, um conhecimento, quem sabe, "alternativo", capaz de dar conta de tantos anos de cegueira - quem na escola aprendeu sobre movimento pan-africano?

E lá vou eu com os meus ideais.

miércoles, diciembre 10, 2008

6o anos depois, ainda não aprendemos a lição


"Há exatos 60 anos, os países-membros da ONU (Organização das Nações Unidas) aprovaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A iniciativa, que contou com 48 votos a favor e oito abstenções, surgiu como uma reação mundial às atrocidades testemunhadas durante a Segunda Guerra (1938-1945)." (da Folha Online)

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade."

(para ler a carta completa)

Silêncio


Não bastaram os cinco mil e setecentos estupros. CINCO MIL E SETECENTOS ESTUPROS. Já não falamos mais destas mulheres, tampouco falaremos muitos de seus filhos e netos, de suas doenças, de seu suplício. [salvo preciosas exceções: http://mediastorm.org/0024.htm]

Não bastou que, depois de dias de viagem e negociações, as forças humanitárias encontrassem, no lugar de duzentas e cinquenta mil pessoas, o grande vazio centro-africano. DUZENTAS E CINQUENTA MIL PESSOAS "desapareceram" dos acampamentos onde poderiam encontrar algo parecido com a paz (como usamos essa palavra fortuitamente!). O reforço de cascos-azuis chegou um mês depois.

Um milhão e seiscentas mil pessoas, UM MILHÃO E SEISCENTAS MIL pessoas foram forçadas a andar, andar... Seguramente continuam. Não sabemos ao certo. Depois de algumas semanas, o conflito entre forças de Nkunda e Kabila já não interessa. Optamos por ocupar nosso tempo e nosso espaço com a comemoração do aniversário de Ms. Britney.

A União Européia, por divergências internas, ainda não autorizou o envio de mais tropas. Mesmo que a atitude não gere nem pequenas soluções imediatas (vide ONU: haviam 17 mil soldados da organização no território, mas pouco mais de algumas centenas se deslocaram para as regiões de conflito), poderia configurar uma demostração de que, apesar de tudo, a UE ainda tem consciência de sua responsabilidade moral e política sobre o continente. Mas relevem o que digo eu e minha ingenuidade...

Os líderes que participaram do início das negociações Nairóbi, na segunda-feira, não esbarraram nem com Nkunda nem com Kabila. Por onde andam? Quantos direitos humanos estão sendo violados a seu mando enquanto a cúpula tenta decidir, depois de quase 5 meses de conflito, qual pode ser a saída? Por aqui, ainda não encontrei nenhuma.

*Mulher congolesa - AP

lunes, diciembre 08, 2008

Início da Primavera

Amêndoas. De Van Gogh para seu sobrinho, o pequeno Vincent.

domingo, diciembre 07, 2008

Cegueira

A mãe segurava-a pela mão, mas a pequenina era mais firme: era ela quem guiava a mãe. "Vem por aqui", dizia, responsável. A mãe sorria e se deixava levar. A filha já olhava por ela.
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Escrever multiplica a nossa existência.
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...Desculpando-me pela ausência.

domingo, octubre 05, 2008

Inflação primaveril

As três pequeninas andavam juntas pelo centro da cidade, cheio por conta do belo dia para compras e passeios. Aproximaram-se da banca que anunciava uma promoção de flores e plantas em comemoração ao início da primavera. Abrindo pequenos espaços entre a multidão, olharam bem para os preços, como que pesquisando. Mas a inflação não poupa nem as flores, nem ninguém. Por sorte, acharam uma margarida da cor que buscavam – amarela, como o laço que enfeitava os cabelos castanhos da menor. Puxaram a vendedora pelo avental e apontaram o que tinham escolhido levar.

As crianças das cidades geralmente têm uma experiência de jardinagem limitada. Na escola aprendem a plantar o feijão em algodão e só. Não costumam ligar mais para as flores até ficarem adultas, quando comprar ou receber uma flor assume significados diversos. Vai visitar? Uma gérbera. Nasceu o bebê? Uma violeta. É encontro? Rosas, sem pestanejar. Assim nos dizem - nada de plantar por plantar, nada de florescer por florescer.

Mas ali, em meio à passagem encardida da vida, numa pequena pausa na correria que não nos deixa tempo para flores nem crianças, elas juntaram as mãozinhas e despejaram o que tinham de moedas para comprar um lindo vaso de margaridas amarelas! Vi a cara da vendedora se impacientar: “quem vai contar tudo isso?”.

Depois de constatarem que havia o suficiente, perguntaram se um pacote com papel de seda e fita de cetim podia ser feito. “Mais dez reais”, disse com má vontade a boca no meio da cara redonda. “É mais caro o embrulho do que a flor...”, constataram na sua esperteza de seis ou sete anos. E, desapontadas, deixaram no lugar as margaridas amarelas, envoltas em plástico frio e transparente, assim, como costumam nos entregar a vida nos dias de hoje.

viernes, julio 11, 2008

A esperança veste rosa

A felicidade do nascimento só pode ser entendida quando você participa de um, mesmo que seja na posição de espectador, atrás de uma janelinha de 1x1. “Nasceu, Nasceu! É uma menina linda!”. Uns 7 celulares se revezavam no trabalho de informar, no menor tempo possível, a maior quantidade de pessoas. Maria Fernanda veio ao mundo e eu pude ver, disputando com outros cinco rostos um pedaço do vidro, ela tomar o primeiro banho, ter os 3,150kg pesados e o cordão umbilical cortado, ficar rosa com a roupa especialmente escolhida para o momento.

Ela no berço, quentinha dentro do embrulho que fizeram depois do banho; o pai ao lado, já contando alguma estória que nunca saberemos qual. Mafê sabia que era nova por ali e, certamente, preferiu ouvir o dono do pedaço antes de manifestar-se. Quando ele a pegou, deu para ver: a delicadeza da vida cabia em uma mão aberta. Do nosso lado, elogios e grunhidos próprios de adultos quando vêem nenês. Mas ela não ouviu e, mesmo que ouvisse, creio que iria preferir a estória do pai, qualquer que fosse.

Entre os afagos do lado de lá e as fotos do lado daqui, pensei em como é puro um bebê. Saint-Exupéry pode falar melhor que eu. Frente a uma criança que dormia entre os pais operários, durante uma viagem de trem, afirma “eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa de vida”. O autor de Terra dos Homens tinha percebido uma coisa importante: quando nascemos representamos possibilidades. Isso explica porque, enquanto olhava Maria Fernanda, tinha pensamentos de esperança.

Minhas idéias, que se (des)organizam em espiral, me levaram para longe: será que Hitler, ou Stálin, Mugabe ou Khomeini, ou...(é melhor parar por aqui) passaram por isso?! Não imagino como teriam sido seus rostinhos carinhosos e inofensivos, embrulhados em uma manta branca. E depois de pensar no que poderiam ter sido ao invés do que foram, pergunto-me: qual é o momento exato em que entortamos as crianças para que virem homens?

“Olha que linda a roupa rosa!”. Volto à janelinha 1x1, muito mais colorida. Observo o malabarismo da enfermeira para vestir os 48cm de gente: levanta, põe a fralda, vira (“olha os olhos dela!”), põe o tip-top; vira, põe a calça, a camisa (bordada na gola), o pulôver, enrola a manta, berço. A Maria Fernanda está prontinha para voltar aos cuidados da mamãe. Antes de deixar a maternidade, desejo que a Mafê nunca perca a curiosidade pelas coisas lindas do mundo. E que não esqueça de olhar, atenta e docemente, para as pessoas que estão a sua volta, contando-lhe estórias a todo momento. E lá vai ela, um pedaço de vida rosa, uma promessa bem vinda!

lunes, julio 07, 2008

Fotos


Pessoal, deixo o endereço do FLICKR onde disponibilizo minhas fotos. Como só estou começando, todas as críticas e sugestões são muito importantes!

www.flickr.com/entre_mentes

Espero que gostem!

Laurinha

jueves, junio 19, 2008

A África que a mídia adotou

Em um encontro sobre jornalismo internacional e África em Madrid, junho de 200, ouvi o jornalista espanhol Afonso Armada dizer que nós, que trabalhamos com informação, somos amigos das hipérboles: vendemos um mundo incompreensível, mas muito atrativo. Esse raciocínio pode explicar grande parte dos problemas que detectamos ao olhar para a cobertura jornalística, seja ela nacional ou internacional. No entanto, neste último caso, a visão hiperbólica tem efeitos mais profundos e menos corrigíveis. A idéia que fazemos da África e da sua realidade é um dos melhores exemplos.

A diminuição dos correspondentes internacionais em solo africano – causada pela falta de verbas e pela indiferença das empresas – é paradoxal quando levamos em conta o aumento da demanda por informação. Quando existem, as notícias limitam-se ao conteúdo das agências - que dominam o cenário internacional desde o século XIX, quando foram criadas - e reproduzem o desinteresse na mesma medida em que despertam uma compaixão passiva nos leitores-espectadores. A imagem da fome e da miséria dos africanos nos dá pena e, acima de tudo, tranqüilidade e confiança no modelo ocidental de desenvolvimento. Assim, nos afastamos cada vez mais do continente que tratamos como país. O problema não está só no trabalho agências, mas numa concepção distorcida de jornalismo.

Hoje, a cobertura internacional sobre a África se funda em um falso altruísmo: assumimos a responsabilidade de escrever a história da África (que sempre existiu através da oralidade). Mas, até que ponto essa história traduz a realidade? Ela dá conta da multiplicidade dos 52 países? Que futuro, que destino essa história está impondo aos africanos? Apesar do movimento pan-africano e os sonhos acalentados com as independências terem fracassado, a repórter Isabel Coello, que trabalhou por muitos anos como correspondente da agência EFE na região dos Grandes Lagos, defende que a África é mais viva do que vemos. “Algumas nações estão se fazendo mais responsáveis por seus problemas”, afirma. “A dificuldade é que a África não interessa”. Mas não foi sempre assim.

O jornalista polonês Ryszard Kapuscinski tinha argumentos fortes a respeito da importância do jornalismo para a África, sem cair nos simplismos e generalizações com os quais estamos acostumados. Em seu livro Os cínicos não servem para este ofício, explica que “a pobreza sofre, mas sofre em silêncio. Você encontrará situações de rebeldia só quando as pessoas pobres albergarem alguma esperança. (...) Essa gente não se rebelará nunca. Assim, necessita que alguém fale por eles. Esta é uma das obrigações morais que temos quando escrevemos sobre essa parte infeliz da família humana”. E não é perguntando a uma mãe com seu filho morto por desnutrição no colo “Como você se sente?”, que comunicaremos (no sentido de tornar comum) a África ao mundo.

A responsabilidade é ainda maior quando damos voz a um continente que não é nosso. Por isso, é necessário que levemos em conta sua multiplicidade, assim como sua história e particularidades sociais e políticas. Em um fórum sobre jornalismo realizado em São Paulo no ano de 2006, Robert Fisk, premiado repórter do inglês The Independent, admitiu que “a falta de perspectiva histórica em reportagens internacionais” é um dos grandes problemas da cobertura que temos feito. Além disso, devemos deixar de lado os simplismos: é indispensável não esquecer que, assim como há a África da AIDS ou da fome, há uma mais próxima, que é parte indissociável de um mundo que se pretende globalizado. Há também a África que investe em infra-estrutura ou a África das democracias – que, apesar de frágeis, despontam depois de anos de totalitarismos sangrentos. Ou, então, a África que abriga quase um sétimo da população mundial: uma África que tem vontade, quer e abre oportunidades.

Temos que aprender com a ironia de Binyavanga Wainaina, jornalista queniano. Em texto intitulado “How to write about Africa” (Como escrever sobre a África) ele observa: “A África é o único continente que você pode amar – tire vantagem disso. (...) A África é para dar pena, ser adorada e dominada. Qualquer que seja o ângulo que você escolha, esteja certo de deixar a forte impressão que, sem a sua intervenção e seu importante texto, a África está condenada”.

viernes, mayo 23, 2008

Brinde solitário


Entrou como se fosse da casa. Não era a primeira vez que estava no restaurante e já conhecia os degraus que separavam a entrada do salão. Não titubeou: escolheu a melhor mesa (são sempre ao lado de uma linda janela) e se sentou de maneira esparramada, num conforto quase forçado. Queria atenção e, para tanto, gesticulava impaciente para o garçom que, percebendo a aflição do cliente, apresentou-se solícito. O cliente foi rasteiro e, como diria minha avó, tratou o jovem atendente “com casca e tudo”. Pediu o mais caro tinto do menu para a entrada. Fechou o cardápio e aguardou olhando o movimento através da janela. É... Estava só, mas ainda tinha aquela janela...

Tinha bondade no fundo do olhar e os ares da maturidade precoce – ai, os ares da maturidade... - escondiam a carência do menino já homem, ou quase homem, ou quase menino. Tinha classe, e isso o que lhe importava. E a janela... através daquele recorte de mundo, via as senhoras e senhoritas, cada qual a sua maneira. Mal sabiam elas que, enquanto passeavam na noite, passavam pelo crivo do rapaz. Nenhuma lhe parecia bela o suficiente, mas isso não vem ao caso porque o vinho chegou rápido e o desviou de seus pensamentos.

O cheiro da rolha o fez fechar os olhos. Sem se dirigir ao garçom, viu o tinto encher um quinto da taça e rebolar com o movimento feito para que o aroma se apurasse. Num ritual conhecido, cheirou e bebeu e aprovou. E seguiu tomando, enquanto o prato principal não chegava. Mas também logo, chegou. E ele se refestelou sozinho, e criticou sozinho um tempero diferente, e sozinho devolveu os pratos ao garçom enquanto pedia um delicioso bolo de chocolate com sorvete para a sobremesa.

Não pôde dividir com ninguém a vontade daquele doce e, pior, o prazer satisfeito nas duas primeiras garfadas. Isso porque na terceira ele parou, olhando desolado para o pratinho decorado de flores. Sem mais nada a pedir, sem mais vinho na garrafa, se pôs a brincar com o bolo e o sorvete, transformando-os em uma papa mole e feia – assim mesmo como os pais não nos deixam fazer quando somos crianças. O garçom trouxe a conta, ele pagou e saiu como entrou, deixando para trás qualquer vestígio de solidão e criancice.
*Pintura de Judi Bagnato