martes, septiembre 22, 2009

Onde estarão os homens de azul?


Tudo começou em uma fábrica numa cidadezinha do Vale do Itajaí. O Brasil se modernizava, a ferrovia levava e trazia carvão, o país virava do avesso e as pessoas começavam a lotar os bondes nas cidades: era a urbanização do país. Quem tinha mente empreendedora montava pequenas empresas familiares, que logo se convertiam em magazines, que logo se convertiam em redes nacionais de lojas. Mas na cidadezinha de onde partimos, a fita cassete havia apenas começado a tocar a nova onda.

A família de seu Schultz era uma tradicional família alemã. Todos loiros-quase-brancos, com suas roupas e casas e comidas e jeitos de falar. Coisas deles. Toda a cidade estava formada por outros pequenos núcleos familiares como o do senhor Schultz. Mas nem todos eram empreendedores como nosso protagonista: um belo dia, a dona Schultz mostrou que sabia costurar – na verdade, ela sempre soube, só que o marido, atarefado e sempre em largos devaneios, nunca havia reparado no dote da mulher. Quando a estação chuvosa acabou com a horta da família (e aqui se poderia adicionar a fuga das galinhas, a vaca morrendo engasgada, o porco com anorexia, e outros elementos que dão dramaticidade ao relato), seu Schultz passou a empenhar-se em nada mais que buscar algo novo, uma outra fonte de renda para a família que já não agüentava a casa de madeira em estilo alemão, e que sonhava um ático na principal rua da cidade. Pois é neste momento que, entrando na casa a passos lentos, chão rugindo de tão velho, seu Schultz dá com a senhora Schultz costurando uma calça. A glória!

Aqui a fita passa rápido, porque quando Schultz põe uma idéia na cabeça, não larga até que ela se concretize... Apenas um mês depois (o homem é uma máquina!), a fábrica de calças e outras prendas da família Schulz já havia se tornado o último bafo na pequenina cidade catarinense. Schultz começou com 10, depois 27, depois 43, até formar um exército de 70 homens costurando sem cessar, mãos calejadas, suor escorrendo pela testa... Também não tardou para que Schultz assumisse uma postura cada vez mais autoritária. Sua esposa, que começou costurando, sozinha, todas as peças que o marido vendia de porta em porta, havia sido relegada à função de “recolhedora de retalhos”. Nenhuma mulher podia costurar. Na linha de produção, apenas homens bem treinados. Suas mãos não eram quentes como as das mulheres e as costuras ficavam mais perfeitas (algo similar ao que acontece na preparação do sushi... são essas coincidências históricas...).

Todos os empregados de Schultz vestiam as roupas, que no ano seguinte, passaram a reproduzir uma única tendência, o tradicional macacão azul de seu Schultz, com pequenas variações (“para atingir um público amplo”, defendia nosso empresário). A fábrica era a maior da cidade e de longe se podia escutar os apitos de seu Schultz e o sistema de alto-falantes que chamava os trabalhadores de volta ao posto, 15 minutos depois do almoço. Com seu sotaque carregado, o patrão entoava em inglês macarrônico (“quero ressaltar a internacionalidade do meu produto”): Blue men, now! Blue men, now!

Quem se aventurava passar pelos arredores do rio Itajaí naquela época, se espantava ao escutar, lá da estrada, os apitos, sirenes e gritos que moviam a fábrica de Schultz, que só não é um típico anti-herói porque foi o responsável pelo crescimento da cidade sem-nome-fadada-ao-abandono. E foi o responsável pelo batismo do novo município: BLUMENNOW.
Hoje a fábrica de Schultz está parada, vazia... nem museu virou! Quem se aventura, pode ver os retalhos deixados pela senhora Schultz que, num lapso de emancipação e num ataque de fúria, espalhou pela fábrica todos os retalhos de tecido recolhidos durante um ano. Dizem que vive em uma comunidade hippie em Visconde de Mauá. Só costura roupas multicoloridas. A cidade seguiu firme e forte em seu rumo ao futuro. Hoje já é conhecida pelo carinhoso apelido "Blu".

Nosso protagonista se sentiu tão só sem a senhora Schultz que resolveu abandonar a empresa, voltar para a casa de madeira cujo solo rangia mais a cada dia que passava, e nunca mais foi visto na cidade. Nem no Vale. Dizem os blumenauenses que seguiu andando com suas roupas azuis rumo ao horizonte...

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Esse texto é para lembrar, nesse dia especial, que existem pessoas que nos fazem apenas rir – porque são divertidas e agradáveis; que existem pessoas inteligentes, que nos fazem pensar sobre as coisas da vida e do mundo sob uma perspectiva que nunca tínhamos imaginado; existem ainda algumas outras que nos fazem sonhar. E este tipo, o mais raro, consegue conjugar a destreza com a sabedoria, a alegria com a criatividade. E nos fazem mais felizes – porque nos permitem novos mundos, novas aventuras dentro de nós mesmos. São pessoas que viajam nas palavras, mas também nas idéias. Multiplicam-nas! Espalham-nas sem pedir nada em troca! Irradiam o que nós, que estamos dispostos a aprender com seu exemplo, nem sempre sabemos mostrar com graça. Essas pessoas de especial tipologia, por outro lado, fazem tudo isso naturalmente. E sempre com um sorriso, uma palavra, que fazem toda a diferença no final da história... (ainda que a grande história que escrevem esteja em constante construção). Lacerda, desde aqui – de um lugar onde às vezes fica difícil encontrar homens de azul nas esquinas, mas onde tenho buscado aplicar tudo o que aprendi com você -, te mando um grande abraço, com saudade e com felicidade. Desejando que a vida continue te trazendo muita saúde, além de grandes idéias, grandes risadas e grandes momentos.

Com muito carinho, eu, filha da bailarina aposentada e do velejador suicida (e irmã daquela patricinha), mas amiga de sempre, te mando um feliz aniversário. Todo meu carinho e saudade vão nesse texto, que nada mais é que uma pequena homenagem virtual para um grande amigo e exemplo!

3 comentarios:

Anónimo dijo...

Por mais que tente achar algo criativo para lhe responder, falho!
Um texto seu é sempre um maná que alimenta nossas idéias e fortifica nossa vontade de escrever...
Obrigado pela forma de cumprimentar esse seu velho amigo! Sê feliz, Laura querida!

ca.toledo dijo...

Adorei!

Anónimo dijo...

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