viernes, julio 10, 2009

Impressões


* Calle Carmen num sábado à tarde. Laura Daudén.

Coisas que vejo, escuto, aprendo e percebo nas andanças e nas aulas. Assim mesmo. Um pouco de cada, uma “ensaladilla mixta”, como se diz por essas bandas. A justificativa é simples: é como estão acontecendo para mim nos últimos dias, de maneira difusa, misturada, desorganizada – mas só de longe. Espero que tudo faça bastante sentido quando colocar em perspectiva, como bem fez o Professor Sanahuja na terça-feira, numa aula que acabou com aplausos. De maneira alguma pretendo tentar fazer o que ele conseguiu: de dados aparentemente dispersos, construir – e o melhor – ensinar toda a lógica das relações que fazem parte da nossa realidade. São só pinceladas, talvez um desafio pessoal que divido com vocês.
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Num chiringito (leia-se “boteco”): entra a chinesa com cabelos loiros. Oferece CDs e DVDs, “os últimos lançamentos”, jura em espanhol enrolado. Não vende um sequer. Sai e, logo depois, outro comerciante adentra e tira da sacola de plástico um relógio e um óculos. Passa de mesa em mesa oferecendo a mercadoria. Sai com menos energia do que entrou. Aí vai o estado do bem-estar social, desaparecendo como miragem no calor madrileño.

Numa cerimônia oficial: Depois de dizer que os estudantes internacionais ocuparam quase metade das vagas (1º - México, 2º - Brasil, 3º - Colômbia) e que as mulheres são maioria expressiva, um economista respeitadíssimo explica a todos os futuros alunos da universidade, de maneira clara cristalina, cada passo que levou à crise financeira que todos estamos vivendo (por aqui o tema é obsessão, por motivos sensíveis e visíveis). Terminou dizendo que a solução está na medida entre a influência do Estado na economia e a liberalização dos mercados (alguém pensou nisso umas dezenas de anos atrás, não?!). Terminou sem mencionar como e quem decide sobre esse equilíbrio.

No metrô: Sebastián se aproxima do violonista que já tem o microfone em posição, ainda que não possa cantar na plataforma. O trem só chega em três minutos e ele consegue, nesse tempo, contar que é equatoriano, que está desempregado, que mora em Madri há doze anos, que não sabe nada música flamenca, que não pode responder ao nosso pedido porque podem lhe expulsar do metrô, e que tem que entrar no vagão mais cheio de todos, para andar ao lado da sorte. O trem chega, pára, ele entra, some, parte, a gente fica. Pensando.

No caminho para a faculdade: Ela acabou de se formar em jornalismo, como eu, e veio da Venezuela com o que podia trazer. Eu não sabia até então que os venezuelanos têm um limite de dinheiro para viajar: cada pessoa pode converter $1700. Mesmo que tenha mais dinheiro. Mesmo que tenha que passar um ano fora. Ela veio para a Espanha sozinha, para fazer o curso, com o sonho de voltar com um computador (as compras pela internet estão limitadas aos $400). Metade do que trouxe vai para o investimento. O resto é para o malabarismo. Só assim.

Na parada: Saio do metrô Banco de Espanha em busca da Calle Zorilla – onde acontecia uma exposição de Dorethea Lange (genial, por sinal) –, e coloco a cabeça para fora no meio da Parada do Orgulho Gay de Madri. Um milhão e meio de pessoas pediam que o Estado espanhol fosse laico na prática e que respeitasse o direito de união de pessoas do mesmo sexo. Duas senhoras, com cabelos brancos e olhar curioso, cochichavam de lado enquanto viam passar a bateria regida por um brasileiro e liderada por uma passista (bandeira estrategicamente amarrada na cintura).

Na aula: Todos sentados, entra o Professor Sanahuja e pede que, antes de mais nada, respondamos à seguinte questão: “quem manda aqui?”. Silêncio. As cinco horas que se seguiram foram de total concentração, de discussões sobre crise, China, guerra e narcotráfico, quebradas apenas por um bom-humor e por outras perguntas ainda mais capciosas. Algumas idéias: “quando se escreve a realidade, se está construindo a realidade. Quando descrevemos... estamos descrevendo ou concretizando em forma de discurso uma aspiração?”, “a definição de uma ameaça é uma tomada de poder, é um ato político”, “o Estado-Nação já não é parte da solução, é parte do problema”, “vivemos em uma sociedade apolar: ninguém tem o poder, ele está demasiadamente difuso, fragmentado em 192 países soberanos”. Resumindo: quem manda aqui? Ninguém.

3 comentarios:

Clau dijo...

Nunca na vida pare de escrever. Beijo te amo mami

Rita Branco dijo...

Estava eu hoje..pensando em Espanha, pensando em Madrid...E pensei em Laura.. Será que chegou bem? Como é mesmo o Blog dela? Grande Google! Me ajuda a achar o mundo..todo mundo..E aí está a Laura...à Sevillana. E para meu delírio, escrevendo cada vez mais deliciosamente! Ao ler, senti Madrid, senti as ruas de Madrid. Grácias, Laura! Benvenida!
Besos!

ca.toledo dijo...

Que lindo lau. É bom estar um pouquinho junto com você e vivendo, através de suas palavras, a vida em Madrid. Te amo.