miércoles, julio 22, 2009


Granja de San Idelfonso. Não é uma granja daquelas que vem à memória, cheiro de bolo, galinhas no quintal, uma varanda ensolarada... Nem era de São Ildefonso. Era o palácio de Felipe V, rei da Espanha em 1971. Um baita palácio: em um corredor contei mais de 10 ambientes, todos divididos por cortinas pesadas, cada qual com seu lustre de cristais personalizado. Em cada salão, um tema no teto, um tapete no chão. Os relógios eram carregados nas costas ou na cabeça por estatuetas de negros ou índios. Em uma única sala, três da mesma coleção. Mas a ostentação não surpreendia: como esse há mais meia dúzia.

O que também se contava em dúzias eram os vasos chineses de um metro de altura em cada um dos cantos das salas, sobre os móveis e mesas de mogno. Na última sala, o papel de parede mostrava guerreiros em paisagens de amendoeiras e outras árvores esguias. China. A penteadeira tinha a mesma procedência e ocupava lugar destacado. “Desde aquela época”, disse ao Seba quando reparamos, quase ao mesmo tempo, em mais uma estatueta de olhos puxados.

Em grau excepcionalmente maior, réplicas e tréplicas dos mesmos vasos e dos mesmos bibelôs entopem as prateleiras, caixas e cantos das lojas chinesas em Madrid. Dividem espaço com toda a sorte de comida e apetrecho. Tudo. O mundo colide ali, no buraco negro que pode ser uma aparentemente inofensiva loja de “Frutos secos – Alimentación”.

Olho tudo o que levo comigo. Não há nada, nada, nadinha que não tenha passado, em algum momento do ciclo produtivo, pelas mãos de chineses mal pagos e mal alimentados, em fábricas sem condição alguma de segurança. E, mais que isso, não há nada, nada, nadinha que não tenha algum material vindo, por sua vez, dos grandes contêineres que atravessam o Índico levando tudo o que a África tem (e, quase, tinha).

Somos cúmplices – a verdade é que sempre fomos, nos dois casos, tanto da China quanto no da usurpação da África. Qualquer discurso moralizante sobre o que fazem os chineses dentro de seus muros é bobagem. A credibilidade do ocidente está arruinada há muito tempo, principalmente quando se fala de África. Quando começaram a aparecer os investimentos obscuros e dos acordos escusos da China com os ditadores que persistem no continente, as reações (as mais fáceis em termos discursivos e argumentativos) se baseavam precisamente nisso. Quando ficaram vazias, começou-se a debater o futuro dos monopólios que até hoje atuavam abaixo do Saara. Já não mais.

Em 2002 a China passou os Estados Unidos no valor bruto do comércio com os países da África Sub-saariana. Por motivos bem simples, tendo em vista que o continente tem tudo o que Pequim quer e precisa para não deixar 25 milhões de desempregados a cada ano caso a economia não cresça mais de 8%. Ai de se isso não acontecer... O elefante vai cair da bicicleta desgovernada, e o mundo vai sentir o tremor. Quem pode manter esse ritmo senão o continente mais rico em recursos naturais?! Os reis espanhóis não contavam com isso. Ninguém contava (ou contava, tirando proveito, caladinho, da situação que se desenhava).

Sem grandes restrições por parte dos governos locais, por motivos óbvios, e graças ao avanço dos pacotes públicos e privados chineses no continente, as economias da África Sub-saariana cresceram uma média de 6% ao ano desde 2004, com as nações exportadoras de petróleo e minerais na linha de frente. Muitos acreditam que China seja a última oportunidade de África (ainda que muito do que venha vá diretamente aos bolsos das elites e dos corruptos do momento).

Os países, por outro lado, estão vendo a fuga de sua maior riqueza, que lhes garantiria fundos futruros se bem administrada. Além disso, estão observando a derrocada de sua incipiente indústria com a entrada dos produtos falsificados. África está fardada a ser o centro das minas do mundo? A população quer esse modelo de desenvolvimento e de integração à economia global? Tem outra opção?

Seguimos a visita ao palácio-granja com isso e nada mais na cabeça. Os desenhos nos vasos chineses se tornaram sombras daquelas, chinesas. Quando acenderão as luzes!?

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Aqui, um trechinho do texto do Seba que faz parte do jornal SUR-SUR, nossa produção independente exclusiva para o curso na Complu. Material de primeiríssima mão. A primeira edição é um dossiê especial: “El comodín bajo la manga”. Que disfruteis!

“China empezó su nueva penetración en África hace diez años, atraída por las riquezas minerales del continente, sobre todo por sus reservas de petróleo y gas (sin olvidar las de cobre, cobalto, carbón y oro) necesarias para permitir que se mantenga en el país asiático un rápido ritmo de crecimiento económico. Pero fue también la presencia de mercados de fácil penetración, en los que las manufacturas chinas, de buena tecnología y poco precio, desbaratan toda competencia, lo que atrajo la atención de Pekín. Resumiendo: China ha encontrado en África a principios del siglo XXI el territorio virgen y prometedor que le permite saciar su sed de recursos, al igual que EE UU tuvo en el siglo XIX su far west y Europa hasta el siglo XX al resto del mundo. En 2008, el comercio entre China y África alcanzó un valor de 76.000 millones de euros, diez veces más que en 2000. La cifra es cuatro veces superior al total de la ayuda oficial al desarrollo que recibió el continente africano en 2008.”

* Quando estiver pronto, coloco o jornalzinho aqui em PDF.

3 comentarios:

Gra dijo...

Laurinhaaaaaaa
tá genial o trabalho. Adorei ver o Tiago ali no finalzinho, lembrei da cara de espanto dele dizendo sobre as chinesas carregando tudo na cabeça! Mande saudações e parabéns p o señor Sebastian, hahaha´tá mto bom!

Juliana Dal Piva dijo...

Dona Laura Daudén...é bom dar noticias! a saudade é grande...=) beijosss

ca.toledo dijo...

Que interessante lau. Você tem que vir pra cá para discutirmos o assunto na mesa do jantar haha! com carinho, cá!