viernes, marzo 20, 2009

Pão


Sol das 7h batendo na janela do carro, tráfego intenso no sentido contrário, conversando com a Gi sobre impressões compartilhadas.

Quando os respectivos aviões pousaram em Guarulhos – bafo quente e úmido, confusão no desembarque, o português brasileiro em todas as bocas, pão de queijo quentinho na vitrine – o coração acelerou gostoso: em casa! Um sentimento de amor apertou, quase com vergonha, dizendo como é bom voltar para a terrinha. Sem demagogia ou nacionalismo barato – apenas um sentimento puro de segurança, de pertencimento. “Na mesma hora pensei nos saarauis. Agora entendo melhor o que significa para eles a liberdade de voltar para casa”, disse a Gi. Durante a viagem, muitas vezes nos pegamos pensando em como é difícil entender com profundidade o que é a luta pela terra e pelo regresso. Nunca saberemos o quanto dói. Ouvimos palavras como dignidade e direito, mas continuávamos perguntando se a luta valia a vida (alguma vale?!).

Isso tudo para introduzir uma experiência:

Estávamos cansados e certos de que não queríamos outra noite ao relento (o inverno no Saara não é nada amigável). Fomos dormir com uma família de nômades, que nos acolheram com música, comida e carinho. No dia seguinte, fui despertada pela avó que, anos atrás, havia fugido com seus filhos, andando pelo deserto, escondendo-se das bombas que caiam. Não sabe quantos anos tem – e, ao final, qual é a diferença?! "´Os nômades tem uma relação diferente com o Espaço e com o Tempo´", disse um antropólogo espanhol.

Isso tudo torna ainda mais significativo o ritual do pão, que acompanhei naquela mesma manhã fria. Com toda sua sabedoria e um pouco desconfiada, a matriarca perguntou por que eu me interessava tanto por aquilo. Afinal, era apenas água e farinha. Assim de pobre. Assim de insosso. Respondi que esses traços de sua cultura, tão bonita e simples, me ensinam muito sobre sua história. De fato, quanta coisa pensei e aprendi enquanto a via amassar tudo o que tinha naquele jarro antigo; enquanto esquentava a lenha e desenhava um círculo no chão, enquanto abria a massa e, num gesto divino, soltava-a bem em cima de um buraco; enquanto a cobria com areia e sorria indicando que estava feito.

O pão cozinha no calor da sua terra. Estamos nas zonas liberadas do Saara Ocidental, a pequena parte do território que ainda está sob controle saarauí.

2 comentarios:

Ju dijo...

Oi Laurinha, tudo bom? Tô add teu blog no meu novo. Passa lá : - ))
bsos

Seba Ruiz dijo...

La experiencia de la vida es tener abiertos los cinco sentidos para poder entender lo que pasa a nuestro alrededor. Y tú nos acercas otra formas de vida gracias al oibjetivo de tu cámara.

Mucho ánimo con el libro!!!!

Besos desde Alemania