
Fim de Semana Santa. Entre o
jamón e a
tortilla de patata, minha torta salgada parecia uma intrusa na mesa dominada pelas iguarias espanholas. Valente e já pela metade, a brasileirinha de cebola, tomate e carne observava atônita a conversa acalorada. O tema, “Semana Santa: devoção, religiosidade ou espetáculo turístico?”, enchia o buraco da roda formada por 13 espanhóis (uns laicos, outros nazarenos, e outros mais ou menos um pouco de cada) e duas outras brasileirinhas, igualmente intrusas.
Uma delas era eu. Na hora que se seguiu, pude verificar e comprovar quase cientificamente que a imagem do espanhol bravo, teimoso e cabeça-dura é real. Deus! Até a corajosa Esperança Macarena, santa que sai de procissão mesmo em dias chuvosos e recebe os gritos de
“guapa” por onde passa, foi alfinetada.
Uns diziam que a Semana Santa de Sevilla, “a maior do mundo”, tem pouco caráter religioso faz tempo, e que quase nenhum espectador das procissões esta lá por fé ou devoção. “Possui sim um grande valor, mas é um valor mais cultural que católico”. Eu muda. “Quem diz isso é laico, mas ninguém que tenha algum laço espanhol pode se afirmar laico. Todos nós temos uma pontinha católica”, rebatia um lado. “Eu sou espanhol e não tenho religião
!hombre!”, dizia alguém que tentava ser ouvido.
(Neste momento, não pude deixar de lembrar de meu pai:
“!A Saragoza o al pozo!”)“Mas você não pode dizer que a música, que a estética da coisa de maneira geral não te comova. É claro que comove! Você não precisa ser católico para sentir”, dizia uma devota. Em uma brecha, fui solicitada: “Vamos deixar quem veio de fora dar sua opinião!”. Tentei ser neutra e puxar o tapete para o meu lado, falando um pouco das comemorações no Brasil. A voz da razão me dizia que não seria responsável jogar lenha na fogueira. Amém!
Em poucos minutos a discussão já enfocava a maneira como representam Cristo levando a cruz, se é física e anatomicamente possível ou não. Uma loucura! Já havia percebido a importância da religião católica na cultura espanhola, mas não imaginava o esforço argumentativo poderia suscitar!
Ao final, todos seguiam amigos, é claro. E, as quatro da madrugada, depois de fado, forró e vinho (rolou tudo isso, juro!), foram todos para a rua ver a última das procissões, devotos e não. Eu fui dormir, mas me disseram que o passo não contou com muitos seguidores – certamente porque era fim de festa, sábado de madrugada, e os sevillanos tentavam se recuperar da semana de vigília.
No dia seguinte restava a cera nas ruas, as fotos, o cheiro de incenso na casa e alguns pedaços de torta de carne. A famosa Semana Santa de Sevilla passou linda, como passou a Macarena, com suas velas e suas flores, diante do balcão onde eu estava.
!Guapa!
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*Fotos: 1- Esperança Macarena, esplêndida. 2- Reunião para acompanhar as últimas procissões. Fado, forró, boa comida e risadas. Agradabilíssima!
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